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24 de novembro de 2009

As reflexões do Poeta

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A armada portuguesa chegou, finalmente, a Calecute e, antes de se iniciar outra narrativa sobre as figuras das bandeiras que representam personagens históricas importantes, o sujeito poético (Camões) faz como que uma pausa para dar voz a si próprio, a reflexões e críticas de carácter social e político e confidências quase íntimas.

Canto VII

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Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego!
Eu, que cometo insano e temerário,
Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,
Por caminho tão árduo, longo e vário!
Vosso favor invoco, que navego
Por alto mar, com vento tão contrário,
Que, se não me ajudais, hei grande medo
Que o meu fraco batel se alague cedo.

Volta a pedir inspiração , tal como no Canto I, às Tágides e ninfas do Mondego para que o ajudem no que ele apelida metaforicamente de "caminho árduo, longo e vário", contra tantos obstáculos que se levantam e que, sozinho, não tem meios de enfrentar, porque o "batel é fraco".


79
Olhai que há tanto tempo que, cantando                           ||| A metáfora da vida como
O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,                                         "peregrinação".
A fortuna me traz peregrinando,
Novos trabalhos vendo, e novos danos:                             |||A conjunção coordenativa
Agora o mar, agora experimentando                                      disjuntiva: agora=ora.
Os perigos Mavórcios inumanos,
Qual Canace, que à morte se condena,
Numa mão sempre a espada, e noutra a pena.

80
Agora, com pobreza avorrecida,
Por hospícios alheios degradado;
Agora, da esperança já adquirida,
De novo, mais que nunca, derribado;
Agora às costas escapando a vida,
Que dum fio pendia tão delgado                                       ||| A metáfora da "vida por um fio".
Que não menos milagre foi salvar-se
Que para o Rei Judaico acrescentar-se.

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E ainda, Ninfas minhas, não bastava                                  ||| A apóstrofe às Ninfas.
Que tamanhas misérias me cercassem,
Senão que aqueles, que eu cantando andava
Tal prémio de meus versos me tornassem:                         ||| A ironia amarga: "tal prémio".
A troco dos descansos que esperava,
Das capelas de louro que me honrassem,                           ||| A antítese: "descansos"#"trabalhos".
Trabalhos nunca usados me inventaram,
Com que em tão duro estado me deitaram.


A sua vida tem sido como que uma "peregrinação", pelo mar, na guerra, mas sem desistir nunca da escrita ( "a espada e a pena").
Sempre pobre, ora arriscando a vida, ora recuperando a esperança. Mas, principalmente, a amargura de não ver a sua obra reconhecida e sentir que lhe infligiam punições, quando esperaria "capelas de louro", a recompensa e coroação devidas ao Poeta!
(Continua)


15 de novembro de 2009

«Os Lusíadas»: uma visão multidisciplinar

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Em suporte audiovisual, de elevada qualidade científica, deixo-vos os "documentos" que encontrei.













10 de novembro de 2009

A mitologia em «Os Lusíadas»


De alguns dos trabalhos que me enviaram, retirei tópicos que me parecem úteis para a recapitulação de alguns conteúdos, neste caso, a função da mitologia em Os Lusíadas:



• Obedece às regras da epopeia clássica: conter um plano mitológico com os deuses da sua civilização, e tal acto apenas revela o enorme conhecimento e a profunda admiração que Camões nutria pela Antiguidade Clássica;


• Assegura a acção interna do poema épico ao opor deuses e humanos, possibilitando a demonstração de emoções sem por isso enfraquecer o seu poder;



• Embeleza a intriga, tornando a obra mais do que um especial relato de viagem, e criando um outro ponto de interesse sem porém tirar a importância ao plano da narração; "enfeita", dando mais emoção à história, tornando-a mais uma espécie de “novela” do que apenas um “relatório”;                               

• Mostra que até mesmo os deuses conseguem exprimir sentimentos como o amor, ódio, inveja e sensualidade;                                                      

Imagem da web

• Glorifica o povo português ao colocá-lo em cenários adversos criados pelos deuses, mas que ainda assim conseguem ser superados, criando uma comparação entre a força de ambos;


• Evidencia a grandeza dos feitos portugueses como: vencer o mar (Neptuno), ultrapassar o gigante Adamastor e vencer as guerras (Marte);

• Demonstra que os portugueses enquanto heróis são deuses, pois tornam-se  "imortais" pelos feitos praticados.

2 de novembro de 2009

Para ajudar a estudar:

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Para estarem mais familiarizados com o modelo de teste sobre Os Lusíadas, disponibilizo aqui um teste formativo que devem imprimir e levar para a aula:



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26 de outubro de 2009

A batalha de Ourique: um esboço de análise

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Apresento, agora, um exemplo de análise de um dos episódios de Os Lusíadas e as "linhas" temáticas que podemos explorar. Faço-o de maneira esquemática para se tornar mais "legível".

Um dos episódios lido em aula foi o da Batalha de Ourique (Canto III, estâncias 42 a 54).

É um episódio bélico, cujo tema é uma das batalhas mais emblemáticas da nossa história e da nossa importância como Nação.

Porque:
  1. o exército português é comandado por D. Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal que, com esta batalha, legitimamente conquistou esse direito;
  2. o exército português teve a coragem de enfrentar Cinco Reis Mouros e numa (des)proporção de um para cem;
  3. assim sendo, o facto de terem vencido essa batalha e derrotado estrondosamente os Sarracenos confere aos Portugueses uma maior heroicidade;
  4. essa vitória foi alcançada com a “cumplicidade” de Deus, uma vez que Cristo na Cruz se mostrou a Afonso Henriques;
  5. deste modo, a nação portuguesa ganha também um estatuto de nação “eleita” por Deus, o que adivinhava que os portugueses estariam predestinados a cumprir uma missão gloriosa e abençoada;
  6. essa missão revelar-se-ia mais tarde, quando os portugueses partiram para os Descobrimentos para espalhar a fé cristã;
  7. e essa missão cumpriu-se, através da dilatação do Império e da propagação da Religião;
  8. a importância deste feito bélico ficará, simbolicamente, marcado na bandeira, símbolo da nacionalidade, através das cinco quinas, as cinco chagas de Cristo.
Afonso Henriques é um dos estereótipos do herói individual e representa o herói colectivo que Camões se propõe "cantar": o Povo Português!
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19 de outubro de 2009

Antes de Camões...


Luís de Camões é o primeiro escritor do programa deste ano, com a sua obra épica, Os Lusíadas.
No entanto, antes de escrever aqui alguma coisa sobre ele, gostaria que lessem alguns poemas de outros poetas que, em discurso lírico, assim manifestaram a sua admiração pelo homem e pela obra. Vários são os exemplos: Jorge de Sena, Miguel Torga e, como é óbvio, o próprio Fernando Pessoa que nos ocupará depois.

Destaco, em jeito de apresentação, um poema de Miguel Torga:

Camões

Nem tenho versos, cedro desmedido,
Da pequena floresta portuguesa!
Nem tenho versos, de tão comovido
Que fico a olhar de longe tal grandeza.

Quem te pode cantar, depois do Canto
Que deste à pátria, que to não merece?
O sol da inspiração que acendo e que levanto
Chega aos teus pés e como que arrefece.

Chamar-te génio é justo, mas é pouco.
Chamar-te herói, é dar-te um só poder.
Poeta dum império que era louco,
Foste louco a cantar e louco a combater.

Sirva, pois, de poema este respeito
Que te devo e professo,
Única nau do sonho insatisfeito
Que não teve regresso!

Breve comentário: Sempre o "canto", a grandeza, pátria, herói, génio, império, loucura, combate, poeta, nau, sonho, como topoi ("tópicos") de textos que se relacionam com Camões e Os Lusíadas.