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6 de dezembro de 2009

A Ilha dos Amores



Quando a armada de Vasco da Gama deixa Calecute, Vénus decide premiar os Portugueses e conduzi-los à Ilha dos Amores, episódio que se torna dos mais célebres de Os Lusíadas.
A cena é explícita: um grupo de marinheiros chega a uma ilha desconhecida, estão cansados, a ilha está repleta de belas ninfas que, rapidamente, sucumbem aos desejos dos marinheiros.






Esta imagem (da web) ilustra a alegoria do conhecimento, de elevação e de perenidade: Tethys mostra a Vasco da Gama, na "Máquina do Mundo" (Canto X), os lugares onde os Portugueses hão-de praticar grandes feitos.


Simbologia do episódio da Ilha dos Amores:
  • justa recompensa dos deuses para os marinheiros;
  • exaltação da beleza e da perfeição do corpo, de acordo com o ideal renascentista;
  • alegoria de sentido: a imortalidade dos feitos simbolizada pela união dos homens às deusas;
  • alegoria do Amor como motor do conhecimento, da acção e do destino dos homens na terra: o Amor é a única força capaz de devolver ao mundo a harmonia perdida, representa o mais alto grau de perfeição a que a imperfeita condição humana pode aspirar; 
  • valorização da diversidade amorosa, fruto da experiência do poeta: conhece mulheres de todo o mundo e práticas amorosas que ignoram os códigos europeus;
  • celebração,  através do amor, de uma espécie de multiculturalidade: para Camões não existem fronteiras de raça, de cultura ou de classe.
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9 de novembro de 2009

A propósito da ida a Sintra....


No próximo dia 12, vão a Sintra.

Pensem, então, embora na perspectiva de quem fica, o que seria partir e, ao longo da costa, ir avistando alguns dos mais belos e sagrados locais, como é o caso da Serra de Sintra.  

Camões descreveu essa experiência de partir sem saber se se regressava, escrevendo sobre a Saudade ("Ficava-nos também na amada terra/O coração"):


«Já a vista pouco e pouco se desterra
Daqueles pátrios montes que ficavam;
Ficava o caro Tejo, e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se alongavam.
Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam;
E já depois que toda se escondeu,
Não vimos mais enfim que mar e céu.»

Canto V, estância 3





....Imagem da web


21 de outubro de 2009

Os Lusíadas, Proposição: uma proposta de leitura.

1
As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

2
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

3
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.


Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto I
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Esta é a Proposição, as 3 primeiras estâncias de Os Lusíadas, onde o sujeito poético apresenta, resumidamente, o assunto de todo o poema. É o seguinte:


"Cantando", isto é, exaltando e usando o género épico, tentará proclamar e dar a conhecer ao mundo:
  • "as armas e os barões": as batalhas e os homens notáveis ("assinalados") que tiveram a coragem de navegar mares desconhecidos e tentar ultrapassar os seus próprios limites humanos ("mais do que prometia a força humana") para alargarem as fronteiras em locais longínquos;
  • "as memórias dos reis" que lutaram para expandir a Fé cristã em África e na Ásia;
  • a "memória" de todos os que, pelos feitos praticados, nunca mais serão esquecidos, imortalizando o seu nome e o de todos os portugueses ("libertar da lei da morte").
Assim sendo, todos os antigos poemas épicos e heróis (Ulisses, Eneias, Alexandre...) "nada" valem, porque outros heróis e outros feitos os ultrapassaram e aqueles cairão no esquecimento. Os próprios deuses se renderam aos portugueses, o que simboliza o heroísmo que manifestaram na guerra (Marte) e no mar (Neptuno).

Recursos estilísticos predominantes:
  • sinédoque: "ocidental praia lusitana" em vez de Portugal (a parte em vez do todo);
  • hipérbole: "mais do que prometia a força humana" (exagero da realidade);
  • metáfora e perífrase: "se vão da lei da morte libertando"= tornam-se imortais.
Análise formal: estrofes (estâncias) de 8 versos, oitavas; rima cruzada e emparelhada (abababcc); cada verso tem 10 sílabas métricas (decassilábico): «as/ar/mas/e os/ba/rões/a/ssi/na/la/dos».

Destaco, agora, alguns conectores do discurso:
  • "e também": aditivo;
  • "que eu canto o peito ilustre[...]": causal.